Valor Econômico - 16/03/2020

Indústria de menor porte de SP vai precisar de mais capital de giro, diz setor

Segmento está mais suscetível a problemas de liquidez em um cenário de crise como o atual, segundo Simpi

Por Ana Conceição — De São Paulo

A micro e a pequena indústria vão precisar de maior acesso a crédito para capital de giro para passar pela crise do coronavírus. Com menos canais de financiamento que as médias e grandes empresas, as MPIs estão mais suscetíveis a problemas de liquidez em um cenário de crise de oferta e demanda como o atual. Em fevereiro, cerca de 40% dessas empresas não tinham recursos suficientes para suprir suas necessidades, segundo pesquisa do Simpi, sindicato que reúne o setor em São Paulo. Esse percentual vai aumentar, afirma Joseph Couri, presidente da entidade.

No Estado, as micro e pequenas empresas de vários segmentos industriais relatam interrupções no fornecimento de matérias-primas que vêm da Ásia e também uma demanda aquém da esperada. “Com esses problemas, as micro e pequenas fatalmente terão problemas de liquidez. Precisarão de crédito com mais prazo e melhores condições.”

Couri diz que iniciativas como as do governo do Estado de São Paulo, que liberou R$ 225 milhões por meio do Banco do Povo e da Desenvolve SP, e da Caixa, que anunciou R$ 75 bilhões para capital de giro vão na direção certa.

“Mas não é suficiente. É preciso ter medidas realmente direcionadas a quem mais precisa”, acredita o dirigente, que aponta para a necessidade de taxas de juros mais baixas nos empréstimos. De acordo com a mais recente pesquisa do Simpi, a alta taxa de juros é historicamente um impeditivo para as micro e pequenas. A falta de linhas adequadas ao tamanho do negócio tem sido a segunda principal dificuldade. Das micro e pequenas indústrias que pediram empréstimos em fevereiro, 59% não conseguiram. Outra medida que beneficiaria o setor seria a prorrogação extraordinária do vencimento de impostos, diz Couri.

Segundo ele, o desabastecimento tem sido generalizado entre os segmentos industriais, o que deve afetar a produção das micro e pequenas indústrias ao menos neste trimestre. Há problemas nos segmentos de embalagens, componentes dos mais variados tipos, material para construção, metalúrgicos, químicos, plásticos, cerâmicos.

“Todos os que fizeram o movimento de passar a buscar insumos no exterior têm tido problemas. Além disso, a depreciação do câmbio foi a pá de cal sobre o setor.”

O presidente do Simpi diz que a entidade ainda não tem um levantamento da proporção do setor atingida. A previsão da volta ao normal no fornecimento de insumos é de 60 a 90 dias.

Em fevereiro, a pesquisa bimestral do Indicador de Atividade da Micro e Pequena Indústria, encomendada pelo Simpi ao Datafolha, mostrava um setor um pouco mais otimista com a economia, mas preocupado com o aumento de custos e com um pé atrás nos investimentos.

“Os resultados relacionados a investimentos e custos demonstram que a indústria ainda não se recuperou da crise”, diz Couri.

O índice bimestral que mede a satisfação das micro e pequenas indústrias com a economia alcançou 98 pontos em fevereiro, melhor resultado desde o início de 2014. Mas o indicador de investimentos, que apura se a empresa fez algum tipo de aporte no mês anterior, teve a menor marca para o mês desde 2013, quando a pesquisa começou a ser feita. Foram 21 pontos, ante 31 no mesmo período de 2019.

Já o índice de custos fechou o mês em 112 pontos, o que significa que mais empresas estão sendo afetadas por altas significativas nos custos.

Couri diz que, neste momento, é difícil avaliar com mais exatidão o impacto da epidemia na produção da micro e pequena indústria no país. “Há muitas variáveis. Não sabemos se vai dar a disseminação, se fábricas precisarão parar, o que o governo pretende fazer”, diz. Mas o cenário preocupa e o setor pode ter outro ano de resultados fracos, como em 2019.

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