23/06/2015

O paradoxo do gigante

A atuação brasileira no comércio internacional nunca foi tão frustrante quanto nos últimos anos. Apesar de o Brasil ter o 7º Produto Interno Bruto do mundo, estamos na vergonhosa 25ª posição como país exportador, respondendo por apenas 1,2% do comércio internacional. Na área do comércio exterior, o Brasil é um grande paradoxo, um gigante que sofre de nanismo.

A escolha de parceiros comerciais baseada em alinhamentos ideológicos, em detrimento das questões econômicas, e os já conhecidos gargalos como o excesso de burocracia, os problemas com infraestrutura e logística e a alta carga de tributos, fazem o país perder tempo e oportunidades, evidenciando a miopia de quem não encara com a devida importância nosso comércio exterior.

Há anos o Brasil patina pela escolha de um modelo econômico de exportação ultrapassado. As commodities, ou insumos primários, sempre representaram a grande maioria dos produtos da pauta de exportação brasileira. Enquanto que 2013, entre os 15 maiores pai?ses exportadores, 14 tinham suas pautas de exportac?a?o concentradas em produtos manufaturados.

Só as commodities agrícolas e metálicas, por exemplo, somadas, chegam a cerca de 60% de tudo o que o Brasil exporta. Esse número só não é maior porque produtos como ac?u?car refinado, suco de laranja, etanol, o?leos combusti?veis e cafe? solu?vel são classificados como manufaturados, apesar de serem comercializados como commodities.

Claro, não devemos deixar de produzir e exportar commodities. Mas depender quase que exclusivamente de produtos que sofrem tanta influência externa de variações de preço expõe a colossal fragilidade de nossa balança comercial. Bastam os preços das commodities caírem no mercado internacional, como vem ocorrendo, para desalinhar o equilíbrio da balança.

A balança comercial brasileira registrou em 2014 déficit de US$ 3,930 bilhões. O resultado do ano passado é o pior do comércio exterior brasileiro desde 1998. O governo creditou o desastre à queda do preço do minério de ferro, à crise econômica na Argentina e aumento dos gastos do Brasil com importação de combustíveis.

Nos últimos anos o Brasil se acomodou com os altos preços das commodities e foi perdendo competitividade nas exportações de produtos de maior valor, afetado pelo câmbio valorizado, pela alta carga tributária, pelos juros elevados, pela burocracia excessiva e a infraestrutura deficitária.

Até na indústria a exportação é considerada de “pouca qualidade”. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mostra que entre 2006 e 2014, setores intensivos em recursos naturais e que usam pouca tecnologia responderam por quase 70% do crescimento das exportações da indústria. Nos oito anos cobertos pelo estudo, setores de baixa tecnologia, como abate e fabricação de produtos de carne, produção e refino de açúcar, produção de óleos e gorduras vegetais, por exemplo, aumentaram 69%.  Já as exportações de segmentos industriais, que agregam maior valor aos produtos, ficaram praticamente estagnadas no período.

O Brasil tem hoje a mesma participação no comércio internacional que tinha há 30 anos. Em 1985, o país era responsável por 1,22% do comércio mundial, índice idêntico ao atual. Enquanto isso, países que investiram fortemente na diversificação de sua pauta comercial como Coréia do Sul, Cingapura, Indonésia e a Índia, isso sem falar na China, aumentaram sua participação no mercado internacional buscando parceiros comerciais importantes e com investimento em inovação.

Já está na hora do Brasil diversificar sua pauta de exportações, combinando qualidade e quantidade, e também de reavaliar a estratégia e a importância que dá aos seus parceiros comerciais. Assim como não podemos depender do Mercosul, não devemos também arriscar todas as fichas nas commodities, é preciso inovar.

O caminho para o país ocupar um lugar de destaque no comércio internacional deve ser o do aumento da competitividade e do investimento em inovação. Se quisermos aumentar nossa participação nesse novo mercado global, onde a grande vantagem comercial passou a ser o conhecimento, precisamos investir maciçamente, e de forma perene, em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). Aperfeiçoar nossa capacidade produtiva é a única porta de entrada para uma economia mais moderna.

* Milton Luiz de Melo Santos é economista e presidente da Desenvolve SP.